
Um ano atrás, no quinto dia do oitavo mês, desembarcava pelas bandas do Planalto de Piratininga. Mas como à pobreza não são reservadas pompas, desci só, na Rodoviária Tietê. Eu, duas malas, uma mochila e, ao contrário do que muitos pensam, um tanto de covardia. Sim, pois a fugas não é preciso coragem. Pelo contrário: é preciso certeza absoluta de sua inapetência para resolver o que lhe aflige.
A colonização destas terras sobre mim iniciou-se em uma "travessa", que lá na minha terra, é só uma rua que começa em outra rua, mais importante que ela. Em uma "travessa" da Cerro Corá que fiz meus primeiros meses SP. Por lá umas aves gorjeavam pelas manhãs, mas em espetáculos comedidos da natureza. Seria mesmo capaz de dizer que nunca se deveria procurar os tais passarinhos, sob pena de descobrir que eles eram apenas gravações ou um desses sabiás moribundos cobertos de graxa que se confundem com os pombos – sim, caro amigo, ainda há sabiás por cá.
Mas, por me incomodar o trânsito desnecessário da região cerro-coralina, após o período inicial, mudei o eixo de minha colonização de oeste para o centro. Vim para perto dos judeus que, segundo minha tia, são boa companhia a mineiros, já que somos todos sovinas na opinião dos paulistanos [Bom, na minha também]. Trouxe saudades da Mercearia São Pedro, único lugar em SP onde encontrei uma porção em que é possível molhar o pão enquanto se bebe cerveja [Descontando-se, óbvio, as porções de frango a passarinho encharcado no óleo].
Contudo encontrei outras maravilhas por cá, como o Bar do Fuad, o empreendimento da filha do Nelson Gonçalves e a colônia minero-paranaense que, a muito custo, temos conseguido manter a base de choramentos de pitangas, cervejadas e afins.
Do povo
Mui graciosa é a população desta terra. No período relatado, já ouvi dos nativos frases como: "Toda mineira é puta", "Uma casa só com mineiras? É zona?"e "Volte para sua terra natal sua extraterrestre". Tem também os belos chamamentos, como: "ô petistinha mineira" e "ô comunistinha de BH". Tanto amor me deu a certeza de que é um povo hospitaleiro, empenhado em receber bem os estrangeiros, principalmente se for mulher e de Minas Gerais.
Além de tudo, pelo comportamento cortês de nossos hermanos paulistanos, vejo um grande potencial para a instalação de bordéis com putas mineiras. El Rey deveria investir nesse filão [Alguém, por favor, leve meu pedido ao Aécio Neves que ele certamente entenderá]. Será sucesso absoluto.
Da culinária
Aqui é uma terra donde se come de tudo um pouco. Mas de tudo que comi até agora, de muito pouco gostei. Dizem que sou chata... vá saber.
Das habitações
De todos os estilos de arquitetura desenvolvidos nesta cidade, a que mais gosto, certamente, é aquela tingida de pixo e poluição, mui comum às margens do Minhocão. Ah!, sem contar as belas vias de opulento concreto que mostram a todos o que é desenvolvimento.
Dos modos e costumes
É uma boa terra a mudos, já que se gastam poucas palavras por aqui. Não é preciso dizer bom dia às pessoas, nem desculpa, nem com licença. Certamente, um povo econômico.
Ainda cultivam hábitos saudáveis nos finais de semana, correndo e andando de bicicleta pelos espaços públicos da cidade. Ao que parece, serve como redenção à prática predileta dos paulistanos durante a semana, que é a de andar exaustivamente de carro e buscar maneiras de burlar o rodízio pra não precisar usar o transporte público.
Onde habito atualmente há mais um outro hábito encantador, que é o de vestir os cãezinhos para sair com eles à rua.